segunda-feira, 15 de maio de 2017

"O boleiro (in)completo" ou "Devaneios de um craque incompreendido" (títulos sugeridos...)

                  Gosto de jogar bola, jogo bola, insisto em jogar bola, estou acima do peso, insisto em jogar bola. Prefiro futsal, gosto de campos médios de grama ou sintético, não tenho o hábito de campão, mas vou sempre que me chamam. Não gosto de travinha ou campos de areia, mas vou sempre que me chamam.
                    Nos últimos meses tem sido especial, voltei a jogar na quadra onde tive minhas primeiras aulas em escolinha de futsal, semanalmente treinos 2, 3, 4, 5 vezes na semana, conforme a proximidade dos campeonatos amadores, intercalasses, municipais e intermunicipais que disputávamos.
                    Durante quase 5 anos na década de 90, treinei, joguei, treinei, e algumas vezes brilhei em quadra, fazendo gols decisivos, bonitos, improváveis e até sendo artilheiro em 1 ocasião, mas não vou falar de meus feitos. O tema é o treinamento, os repetitivos treinamentos.
                  Gostava e gosto de jogar na frente, perto do gol, de fazer gol, em função disso na época treinava bastante finalização, chute de perto, de longe, de lado, de bola parada, bola rolando, bolas cruzadas, toques de escanteio, faltas, pênaltis, onde eu queria chegar, nos pênaltis.
                    Costumo ter a memória boa para algumas coisas, tenho bons e maus momentos gravados na lembrança. Já era noite e o nosso treinador Anderson nos ensinou cobranças de pênaltis. O caminhar, a frieza, o toque na bola, o olhar ou não para a bola/canto/goleiro, a força empregada, o tipo de batida, eram muitas as dicas e as repetições, éramos garotos, pré-adolescentes, mas tinha seriedade, profissionalismo naquilo que fazíamos.
            Essa semana, quase 20 anos depois, empatamos a partida e vamos para os pênaltis(alternados). Atravesso a quadra no trote e automaticamente me vem as lembranças, os ensinamentos de quase 2 décadas atrás. Passo alguns segundos extasiado com a lembrança e me espanto com meu time comemorando o gol. Nosso batedor havia marcado. Vinte anos depois estava eu na mesma quadra, debaixo das mesma trave onde outrora havia aprendido a bater pênaltis. Pera? Debaixo? Isso mesmo, no meio da partida fiquei cansado e fui pro gol. Como disse empatamos e lá estava eu frente a frente com o batedor adversário...
                      Entrei no HD da memória da aula revista segundos antes, adiantei o filme e me converti para a posição de goleiro, dei dois chutes em cada canto da trave, bati com a mão no meio e nos ângulos, e pronto, tinha me posicionado no meio do gol. Não conhecia o batedor, mas sabia que ele batia forte, fiquei parado no meio do gol, esperando ele se posicionar. Tomou meia distância, encheu o pé e bateu no meu canto esquerdo....
                      Gosto de estatísticas no futebol, já estava decidido a pular para o meu canto direito, antes de tudo. Enquanto o batedor ajeitava a bola, ele olhou pro mesmo canto, pensei comigo, vai ser fácil, enquanto arrancava, olhou para o lado esquerdo, no meio, e no lado esquerdo de novo, não pensei duas vezes, já havia me adiantado um passo, e numa fração de milésimos e muito reflexo, encaixei o chutaço, repito, chutaço (muita força na bola), encaixei a bola no meio do corpo/entre as pernas. Defeza-sa!
                   É isso a vida meu amigo, você passa anos treinando, se aperfeiçoando, repetindo o mesmo movimento repetidas vezes e quando chega o grande momento, você está na situação oposta. Mas mesmo assim você se supera, consegue uma bela façanha e evita o gol. Ganhamos? Sim, mas sai perdendo, a bolada veio muito forte e atingiu parte das minhas coxas, pedaço da barriga e testículos. Isso mesmo, testículo!
                   Senti uma dor descomunal que vi vertigens, a visão embaçou, fiquei sem ar durante alguns segundos, não tive condições de continuar em quadra para a próxima partida, passei 2 dias “com os ovos doendo”.
                       Já pratiquei outros esportes, já sofri outros impactos no corpo, sofri muitas dores, tenho os 2 joelhos “bichados”, a coxa direita machucada, mas nunca tinha sentido dor tão intensa. Tão intensa que me levou a desabafar e escrever estas palavras.
                Essa não é uma crônica esportiva, uma sátira, uma piada. Poderia falar das minhas inúmeras cobranças de pênaltis, dos meus tempos de “gato” enquanto goleiro. Da vez que quase fui pra Uberlândia disputar o campeonato brasileiro, dos gols de virada, dos inúmeros milhares gols perdidos.
              Essa é a vida “Nelson Rodriguiana” nua e crua, por mais que você esteja forte, preparado, e vença, você acaba perdendo, desmoronando, sentindo dor. Nesse fatídico dia eu percebi o quanto sou/somos indefesos, vi aquilo, presenciei aquilo que deixou desalmado, rendido, sem guarda alguma. Estava perdido. Frágil. Impávido e frágil. Nessa fatídica terça-feira, 9 de Maio de 2017 eu sofri a dor de décadas. Uma dor retroativa, que pensei que havia superado. Mas não, senti muito.
             De algum tempo pra cá, adotei novas filosofias de vida, dentre elas a do estupendo atleta “Bruce Lee”, que dizia para você ser “amorfo”, sem formas (feito a água), se adapte aquilo que você está vivendo, mude, reforme-se...é o que venho tentando fazer... ”seja como água meu amigo...”


                                                         André Martins
                                                            11/05/2017




É caros leitores, notem que isso pode ser tudo, menos uma crônica futebolística, a dor é real... 

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